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[Diário] A insegurança nossa de cada dia

Sexta, nove horas. Volto cansada de mais uma aula à noite, exausta de ter ficado imprensada, durante um trajeto inteiro, em uma van lotada. Por alguma razão, desço em um ponto que não é o diário. A parada de ônibus que sinalizei fica um pouco mais à frente daquela em que sempre paro. Sigo, só, na rua transversal que dá para minha casa.
Na esquina, me deparo com uma cena pouco comum. Dois rapazes, em cima de uma moto, parecem falar com outro que está em pé, na calçada. Essa foi a impressão que a minha miopia me passou. Forcei um pouco a visão até perceber que, na verdade, não se tratava de um cumprimento de amigos. Um dos caras na moto começou a apalpar o jovem que, rendido, se deixava ser tocado por aqueles dois estranhos. E foi nessa hora em que corri desesperada para entrar na minha casa.
Uma semana depois, é claro, de eu ter lido sobre assaltos que aconteceram com amigos e conhecidos.
Essa não é uma cena incomum, nem aqui em Fortaleza, nem em qualquer outro lugar do Brasil. Tornou-se rotina, algo do cotidiano ao qual nunca nos acostumamos, mas que não temos como ir contra. Fica a raiva, a revolta de ter sofrido uma agressão (às vezes física, às vezes psicológica) e a sensação de impotência. Isso para não falar do medo. Até onde aquela pessoa irá para conseguir o celular que comprei com tanto esforço? O que ela fará comigo se eu pedir, quase encarecidamente, pelos meus documentos e meus trabalhos que estão na minha mochila? Será que ela vai meter um tiro na minha cabeça se eu o fizer? Ou vai estar tão desnorteada que tentará tirar a minha vida de qualquer modo, mesmo depois de ter realizado o assalto?
(Isso sem contar com a paranoia, o pânico de sair de casa e a vontade de se prender em uma redoma.)
Aí vem a grande questão: sua vida está nas mãos de quem anda nas ruas à espreita do assalto.  Não importa a quantidade de impostos que você, cidadão, paga para receber serviços de qualidade (e falo com conhecimento de causa. Sou pagadora de impostos e quito minhas dívidas em dia), a segurança de transitar pela cidade a qualquer hora é inexistente. Você não tem mais o direito de sair sem portar qualquer objeto de valor, por mais miserável que seja, porque um desconhecido pode aparecer no meio do caminho e te agredir se não encontrar nada seu para levar. E você não pode nem expressar a sua revolta porque há aqueles que dizem: “tudo isso é culpa do estado opressor e do capitalismo”. Então, a única coisa que te resta é aceitar que a insegurança virou a lei diária das ruas e torcer para não ser o escolhido da vez.
Porque sim, não há chance nem mesmo de gritar por justiça. Não haverá alguém para te ouvir.

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  • Reply Lucas Castelo outubro 13, 2013 at 6:45 pm

    O que mais me incomoda é que ninguém ouve os gritos de socorro, e temos que nos conformar, como você mesmo disse, com a rotina nada agradável que nos cerca. E por falar em cercar, nos cidadãos de bens, temos que nos cercar de muros e grades, para só assim sentir um mísero sentimento de segurança.

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