Livros, Resenhas

[Resenha] Jogos Vorazes (a série) – Suzanne Collins

Feliz Jogos Vorazes! E que a sorte esteja sempre ao seu favor!

Jogos Vorazes, p. 26

Assumo que li a série Jogos Vorazes, da americana Suzanne Collins, tardiamente. O apetite pelos livros só surgiu após o filme, que, confesso, também lutei um pouco para assistir. Foi só após sair do cinema, completamente extasiada pelo longa, que corri atrás de conseguir os três volumes da série . Li todos, porém, apenas em agosto desse ano. Mas vamos ao que interessa.

Acredito que, a essa altura do campeonato, é meio difícil alguém não saber sobre o que é Jogos Vorazes. Uma das mais famosas distopias juvenis do momento, a série retrata a trajetória da adolescente Katniss Everdeen, moradora do paupérrimo Distrito 12 e exímia arqueira, num mundo pós-apocalíptico. Logo no primeiro livro, Katniss, após se colocar no lugar de sua irmã, é convocada a participar de um reality show anual chamado Jogos Vorazes, cujo objetivo é mandar jovens a uma arena, para digladiarem entre si até à morte,  como forma de lembrar aos moradores da nação Panem quem está no poder. Ao todo, são selecionados vinte e quatro participantes – um menino e uma menina dos doze distritos existentes que compõe Panem -, na faixa dos 12 aos 18 anos. Apenas um desses jovens vence o programa, levando consigo honras – e traumas – ao seu lugar de origem. A partir daí, se desenrola uma trama que não se prende apenas às violentas lutas na arena dos Jogos Vorazes: há questões muito mais profundas por trás do visceral programa televisivo.

A narrativa de Jogos Vorazes é em primeira pessoa, feita pela própria Katniss Everdeen. No primeiro livro, ganha contornos duros e secos, retratando perfeitamente a desilusão e a descrença de uma jovem que cresceu na miséria e que não acredita em melhorias. Com o decorrer da série, porém, o texto ganha mais sentimento. Surgem dúvidas, dor por conta das perdas que Katniss vai tendo no desenrolar da trama, as primeiras nuances românticas. O mérito da escritora nessa parte técnica é gritante. É principalmente por meio da narrativa que percebemos que não é apenas a situação de Panem que vai mudando: a própria Katniss está crescendo, se transformando.
Toda a série é um verdadeiro soco no estômago. Segundo Suzanne Collins, a ideia de Jogos Vorazes surgiu enquanto a autora, zapeando pela televisão, viu cenas da guerra no Iraque em um canal e um reality show no outro (e, segundo as más línguas, o mangá e o live action Battle Royale). Então, não espere cenas suaves. Panem, como todo estado opressor, é um verdadeiro inferno. O instinto de sobrevivência, a crueldade e o espírito revolucionário correm soltos nas páginas da trilogia. A desilusão é praticamente uma característica comum à maioria dos personagens (que, mesmo tentando lutar por um futuro melhor, possuem suas descrenças fortes) e, saliento, a maioria desses tem seu psicológico abalado por tantas atrocidades vividas. Portanto, não é fácil digerir nenhum dos livros. A leitura é sôfrega, embora não menos alucinante (Collins tem o dom de, com apenas uma frase, encerrar um capítulo de maneira magistral, deixando o leitor atordoado para descobrir o que está vindo a seguir).

Quando eu era mais nova, assustava a minha mãe pra valer com as coisas que eu soltava sobre o Distrito 12, sobre as pessoas que governam nosso país, Panem, da longínqua cidade chamada Capital. Com o tempo, entendi que isso apenas traria mais problemas. Então, aprendi a controlar a minha língua e a mascarar minhas feições de modo que ninguém jamais pudesse ler os meus pensamentos.

Jogos Vorazes, p. 12

Porém (e esse é um grande porém), a trilogia perde pontos para mim com seu triângulo amoroso, por mais que ele funcione de forma até lógica. Enquanto a questão política da série é trabalhada de maneira magistral, não falo o mesmo do ponto romântico. Não sei se é por questão de preferência (após tanto tempo lendo e escrevendo juvenis, criei um padrão do que me agrada ou não em livros do gênero), mas posso afirmar que a dúvida de Katniss entre quem ela realmente ama chega a ser irritante. E é essa dúvida que gera inúmeros parágrafos de monólogos da adolescente, reflexões sobre que tipo de sentimentos ela nutre por Peeta e por Gale. É uma  indecisão (que dura praticamente a série inteira) tão ferrenha que deixa a narrativa enfadonha em alguns momentos.
(Compensados, claro, pelos instantes de adrenalina).
Os personagens, como um todo, são carismáticos. Haymitch, o mentor alcoólatra  e um verdadeiro “pai” (no melhor sentido da palavra) para Katniss; Cinna, o talentoso e ousado estilista; a pequena Rue; Finnick; Peeta e até mesmo Effie Trinket e toda a sua excentricidade: não há como não se ligar a eles e torcer para que tudo acabe bem, entre tantos outros que vão surgindo com o desenrolar da trilogia. Collins nos presenteia com uma lista longa de personagens que conseguem do leitor desde o amor extremo ao ódio.
E o desfecho que a série ganhou foi belíssimo, embora isso não o faça ser facilmente digerido. Não vejo outra maneira melhor para a trilogia ter acabado. Foi um final tão bem trabalhado e tão impactante que, mesmo após dois meses do término da minha leitura, ainda me encontro pensando nos últimos capítulos de A Esperança (e cantando a música “A Árvore do Enforcado”, mas vocês podem ver o especial que dediquei à canção clicando aqui).
Recomendo muito a leitura de Jogos Vorazes. E que a sorte esteja sempre ao seu favor.

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No Comments

  • Reply Déborah outubro 20, 2013 at 2:42 pm

    Incrivelmente ainda não li a trilogia e nem tenho muita vontade.
    Também não assisti ao filme.
    Não consegue me chamar atenção, mas respeito quem gosta tanto dos livros como do filme.
    Espero ler um dia.

    • Reply Kamile Girão outubro 20, 2013 at 3:11 pm

      Oi, Déborah! Tudo bem? Obrigada pela visita 😀
      Caso você leia os livros, eu gostaria muito de saber a sua opinião. Talvez você se surpreenda, como aconteceu comigo(eu também não tinha muita vontade de conhecer a série).
      Abraços e até breve! :*

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