Diario

[Diário] O dia em que mereci ser estuprada

Sexta, primeiro de novembro, 2013. 11h30. Eu e a Nah Dias acabávamos de sair de uma festa de halloween feminista. Nós ríamos, nos divertindo com nossos chapeuzinhos de bruxas e nossas vassouras. Não estávamos fantasiadas com nada além desses dois simples acessórios, mas que nos renderam elogios na festa. As meninas diziam que estávamos lindas, falavam que nossos chapéus eram uma graça e perguntavam, interessadas, onde havíamos os comprado. Até participamos do concurso, como bruxa alquimista e bruxa dos campos. Eu brinquei dizendo que já poderíamos participar da nova temporada do American Horror Story.
Como não queríamos gastar dinheiro com táxi (já havíamos gastado horrores com o show da Loreena McKennitt), saímos cedo da festa para não perder o último horário do metrô. Estava bem frio, mas continuávamos rindo, comentando sobre as pessoas legais que havíamos conhecido e sobre como o lugar era agradável. Conversávamos, também, sobre tarô e bruxaria, enquanto corríamos quando o sinal fechava para os pedestres. Mas todos os nossos risos e conversas findaram tão logo entramos na estação de metrô.
A humilhação começou cedo. “Olha a bruxa!”, foi a primeira coisa que escutamos. Até aí tudo bem, ignorável. Porém, as pessoas não se contentaram apenas em comentar a nossa “fantasia”. Passaram para “brincadeiras” desnecessárias em pouco tempo. Risadas nos acompanhavam enquanto andávamos. Um grupo de jovens (não lembro agora se estavam ou não bêbados) começaram a rir de nós, ridicularizar, e a estação da Luz acompanhou o coro. Tentamos ignorar o quanto pudemos, mas houve momentos que cansamos. Enquanto subíamos a escada rolante, um cara qualquer começou a mexer com a Nani. Ela, cansada, rebateu. Perguntou, mostrando a sua vassourinha e imitando o nível da conversa do cara, se ele gostaria de receber bambu no cu (com essas palavras). O rapaz disse que não gostava daquele tipo de coisa, e ela respondeu que também não estávamos nem um pouco felizes com aquilo.
Apressamos o passo. Andando de mãos dadas, fomos quase correndo para poder alcançar o metrô e sair dali. A vontade de desaparecer era gigantesca. Nunca, em meus vinte anos, presenciei algo tão bestial como aquele episódio. Eu realmente não entendia qual o motivo da comédia: duas garotas usando adereços de bruxas, claramente voltando de uma festa de halloween? O que havia de mal naquilo? Pessoas também se divertem, não? Havia muita gente no metrô, jovens em sua maioria, que aproveitavam a sua sexta à noite com garrafas de vinho na mão, embriagando-se lentamente. Porém, ninguém mexia com eles. O que havia de errado conosco, então? Seria o fato de sermos duas mulheres, sozinhas, andando de mãos dadas?
Aí chegou a cereja do bolo. Enquanto andávamos apressadas, um grupo de homens atrás de nós disseram que deveríamos ser estupradas. O motivo? Nem nós mesmas sabemos. Tudo o que ficou em nossas memórias foi o desejo mórbido e violento daquele grupo. Desejo esse que foi direcionado a pessoas que eles nem ao menos sabiam os nomes.

(As duas bruxas que foram queimadas numa fogueira de palavras)

Nani perdeu a paciência. Revoltada, atacou o primeiro homem que viu, empunhando e quebrando a sua vassoura. Ela atingiu a pessoa errada e ele, com raiva, a chamou de louca, disse para ela tomar cuidado com suas ações e desferiu mais uma pérola: “se você não fosse mulher, eu metia a mão na sua cara”.
Peguei a mão dela e saí correndo. Chegamos ao metrô e não aguentei: caí em lágrimas. Chorei compulsivamente enquanto ela me abraçava, quase aos prantos também e igualmente perturbada. Aquilo nunca havia acontecido a nenhuma de nós. Por mais “comum” que seja para ambas escutar piadinhas nas ruas, ouvir alguém nos agourando daquela forma era um lamentável e inédito episódio. Uma série de perguntas passava por nossas cabeças, mas nenhuma resposta conseguia explicar tamanha violência verbal. Sentimo-nos expostas, humilhadas, reduzidas a nada por um grupo de desconhecidos.
Estávamos tão nervosas que, quando descemos em nosso ponto, não conseguimos voltar andando para casa. Havia um bar perto de casa e não estávamos com vontade de ser mais ridicularizadas ainda. Fomos ao Batalhão do Rota e os policiais, solícitos, chamaram um táxi para nós. Gastamos doze reais para poucos metros que nos distanciava do nosso destino.

Ainda não sei ao certo o que pensar da agressão (sim, porque isso foi uma agressão. A pior que já sofri, inclusive) da noite passada. Estupro é um dos crimes mais covardes que existe e isso não é segredo para ninguém. Não faz, portanto, sentido algum pessoas desconhecidas desejarem tamanho mal para nós e por razões completamente inexistentes. Tento pensar que o mundo ainda é regido pela lei do retorno, e que agourar alguém traz consequências igualmente ruins a quem o faz. Mas isso não é o bastante para me confortar ou me deixar mais tranquila porque sei que, quando eu colocar o pé na rua, correrei o risco de escutar isso novamente. E ainda há o medo de que o desejo do outro se torne realidade. O quanto faltava para aqueles caras nos pegarem à força e concretizarem suas vontades? Por mais que tenhamos voltado inteiras para casa, quem garante que isso poderá não acontecer? Se há a “coragem” para falar, não restam dúvidas de que existirá, também, a força para agir.
Até quando essa realidade se perpetuará, eu não faço ideia. Mas me restam esperanças sinceras de que, algum dia, isso não aconteça mais. Nem conosco e nem com mulher nenhuma.

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No Comments

  • Reply Patie novembro 2, 2013 at 11:50 am

    Tô te abraçando agora, Kams <3

    • Reply Kamile Girão novembro 2, 2013 at 12:04 pm

      E eu tô adorando receber o seu abraço, minha linda <3

  • Reply Josy Stoque novembro 2, 2013 at 1:39 pm

    Estupro é o crime mais covarde que pode existir. Me enoja e revolta! Também acredito nas forças da palavras, Kami, assim como eles jogaram merda aos ventos, vão receber de volta, em dobro. Estou feliz por você e sua amiga estarem bem, mas realmente não gostaria de vê-las amedrontadas o resto de suas vidas por pessoas que só tem o mal no coração. Que sirva de alerta: o mundo é negro, temos que tomar cuidado para onde vamos para que nossa luz não se extingue. Um beijo e fica em paz.

  • Reply Dany novembro 2, 2013 at 3:55 pm

    Sem palavras, realmente uma situação dessa ninguém merece passar.
    Mais, graças a Deus que nada de ruim ocorreu.
    Nem sei como que eu reagiria caso isso acontecesse comigo. Lamentável uma situação dessa.

  • Reply Stephanie novembro 2, 2013 at 7:49 pm

    Kami, eu só queria dizer que eu sinto muito por isso que te aconteceu e que quase chorei ao ler isso, só imaginando essa situação!
    Sinta-se virtualmente abraçada e também sinta-se apoiada mais do que virtualmente.
    Fique bem, o.k.? :)
    Beijo.

  • Reply Samuel Sales Pessanha novembro 3, 2013 at 6:58 am

    Posso dizer o que já aconteceu comigo quando eu era criança? Quando eu não sabia o que era sexo? Nem sabia qual era o meu gênero, mas mesmos assim tiraram de mim o que uma criança não tinha condições de dar. Hoje sou casado, pai de três filhos, mas as sequelas daquele dia, guardarei no meu subconsciente para o resto da vida. Eu lamento por essas duas moças, até gostaria de ajuda-las se isso for possível: eu me apeguei com o Criador dos Céus e da Terra e criador do homem, que hoje não é tão sapiens quanto quando foi criado. Não sou fanático religioso, mas a força que Ele me dá, é suficiente para continuar vivendo.

  • Reply Nilsen novembro 3, 2013 at 8:30 am

    Já tinha ficado chocada com o que li no facebook, mas agora eu nem sei mais converter em palavras o que eu tô sentindo. Até desejei ter aceitado o convite pra ir à festa pra estar com vocês nesse momento… sei lá, poder ajudar, de algum modo. Se bem que nessas situações não há muito o que fazer, né?

    Violência verbal, pra mim, é tão ruim quanto a física, porque pode não deixar roxos na pele mas deixa cicatrizes em outros lugares. Por muito menos eu já lembro, com rancor, de coisas que foram ditas pra mim por caras na rua… imagina assim, de um jeito tão duro.

    Sei que vocês duas já sabem, mas ninguém tem o direito de fazer isso. NINGUÉM. Tô muito chateada e revoltada com o que aconteceu. Ridículo.

    Fiquem bem! <3

  • Reply Priscila novembro 3, 2013 at 12:47 pm

    Meu coração ficou apertadinho lendo isso, Kami.
    Sabe, eu vi o link pra esse post atraves de um amigo no facebook. Eu conhecia vc de nome, tinha marcados seus livros como “vou ler” no skoob, mas nunca tinha passado por aqui.
    (Nem sabia que você é feminista e isso é <3 amor)
    Acho que nem tenho o que dizer, porque isso é triste demais, demais, e ainda assim é nossa realidade de todo dia. Cultura de estupro é isso aí. É ter gente que se acha no direito de fazer isso por droga de razão nenhuma.
    Acho que o pior de tudo é que uma coisa horrível dessa acontece e a gente ainda se vê feliz por não ter acontecido algo ainda pior.

  • Reply Filipe Jesuino novembro 3, 2013 at 2:38 pm

    Minha total solidariedade, Kamile. Não sei até que ponto posso assumir o lugar do outro para dizer, por eles, que sinto muito. Espero que eles próprios sintam e que, ao menos, para compensar a dor, a vergonha e a frustração que vocês sentiram (e ainda devem estar sentindo), possam por um momento ter alguma empatia e perceber que o mal que praticam com o outro é responsável pela derrocada dos valores sociais que eles próprios precisam para sentirem seguros e dignos. Quem sabe, daí, ao menos outras pessoas possam ser poupadas disso.
    Fiquem em paz!
    Cordialmente

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