Livros, Resenhas

[Resenha] Todo Dia – David Levithan

Neste novo romance, David Levithan leva a criatividade a outro patamar. Seu protagonista, A, acorda todo dia em um corpo diferente. Não importa o lugar, o gênero ou a personalidade, A precisa se adaptar ao novo corpo, mesmo que só por um dia. Depois de 16 anos vivendo assim, A já aprendeu a seguir as próprias regras: nunca interferir, nem se envolver. Até que uma manhã acorda no corpo de Justin e conhece sua namorada, Rhiannon. A partir desse momento, todas as suas prioridades mudam, e, conforme se envolvem mais, lutando para se reencontrar a cada 24 horas, A e Rhiannon precisam questionar tudo em nome do amor.

 

 

Não foi de primeira que me encantei por Todo Dia. Verdade seja dita, capa chama a atenção e a de Todo Dia não me foi muito atrativa, embora ela seja muito coerente com o que a história transmite. Talvez a pouca variação de cores e a predominância do bege não tenha me agradado, mas por causa das boas resenhas que li do livro, resolvi dar uma chance e me permiti conhecer a história.
Não me decepcionei, mas tampouco me encantei.
A é um “humano” (não consegui aceitar a existência de A como humana. Para mim, ele é uma espécie de espírito em fase de aprendizado, algo do tipo) que, todos os dias, acorda em um corpo diferente. Desde que se entendeu por gente, A sabe que sua vida é assim. Está sendo assim desde sempre. Ele não tem “pais”, não sabe porque esse fenômeno acontece e vive de forma que não interfira ou atrapalhe a existência dos corpos que ocupa (e é nesse ponto que faço analogia à cor da capa, que não é viva ou mesmo vibrante. Como a existência de “A”). Já foi, inclusive, de tudo um pouco: menino, menina, drogado, transexual, depressivo, garota popular e desejada, jogador de futebol, nerd, religioso e por aí vai. Foram longas experiências em corpos diferentes, corpos que A raramente ocupa mais de duas vezes.
Acostumado à eterna mudança de sua vida, A tenta não criar vínculos. Sua existência é solitária, apática. Porém, no dia 5.994 as coisas tomam rumos diferentes: ele conhece Rhiannon e, pela primeira vez, se apaixona e quer se manter perto de alguém. Ele quer ser notado, quer que alguém possa ver que ele está ali, embora escondido por tantas faces e tantas vivências diferentes. Obviamente, tal fato traz uma série de problemas. Afinal, manter um relacionamento com uma pessoa que não tem uma existência física não é algo muito comum – ou mesmo fácil.

Corro. Sou feito para correr. Porque, quando você corre, pode ser qualquer um. Você concentra todas as energias em um corpo, nada mais nada menos do que um corpo. Se você está correndo para vencer, não pensa em nada além dos pensamentos do corpo, nem tem objetivos além dos pensamentos do corpo, nem tem objetivos além dos objetivos do corpo. Você se extingue em nome da velocidade. E se anula para ultrapassar a linha de chegada.

Admito que o que me tocou verdadeiramente no livro não foi a questão romântica trabalhada (não consegui me afeiçoar a Rhiannon), mas sim as reflexões sensíveis que A faz. Como ele não se classifica como um gênero, tudo para ele é muito natural – ser garoto, garota, transexual. Ele não compreende a existência de preconceitos quando todos somos iguais em praticamente tudo. Isso fora a poética questão: “O que você faria se você só tivesse um dia?”. A sacada do autor foi realmente genial e a vida de A foi trabalhada com muita sensibilidade. Outro ponto alto foi a ausência de explicações para muitas das questões trabalhadas. Você não precisa saber dos detalhes esmiuçados (como porque A vive desse jeito, o que realmente ele é) para a história funcionar. Ela se desenvolve perfeitamente bem sem que cada pormenor seja detalhado.
Mas, admito, por mais sensível e bem trabalhado que a história seja, ela não me tocou lá no fundo. Ainda assim, considero que Todo Dia é um livro de leitura quase obrigatória. Refletir nunca é demais, não é mesmo?

 

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