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[Resenha] Bling Ring: A gangue de Hollywood – Nancy Jo Sales

Entre 2008 e 2009, as residências de Lindsay Lohan, Orlando Bloom, Paris Hilton e diversas outras celebridades foram invadidas e saqueadas. Os ladrões, um grupo de jovens criados em um endinheirado subúrbio de Los Angeles, levaram o equivalente a 3 milhões de dólares em joias, dinheiro e artigos de grife, como relógios Rolex, bolsas Louis Vuitton, perfumes Chanel e jaquetas Diane von Furstenberg. As notícias surpreendentes sobre o caso chocaram Hollywood e intrigaram o mundo. Por que esses garotos, que em nada correspondiam à tradicional imagem dos bandidos, realizaram crimes tão ousados?

A jornalista Nancy Jo Sales entrevistou todos os envolvidos, incluindo os pais e os advogados dos jovens, e até mesmo as celebridades que sofreram os assaltos. Em Bling Ring: a gangue de Hollywood, ela apresenta todos os detalhes de uma das quadrilhas mais audaciosas de nossos tempos. A história real também inspirou o filme de Sofia Coppola, estrelado por Emma Watson.

Demorei um pouco para escrever essa resenha por causa de compromissos e deveres acadêmicos. Faz algum tempo que li Bling Ring, a Gangue de Hollywood (Instrínseca, 2013), mas a leitura ainda está pulsante na minha cabeça, e o livro, cheio de marcações coloridas nas partes que mais mexeram comigo. É lendo um relato como o de Nancy Jo Sales que a gente percebe a mentalidade doentia da nossa sociedade, que a gente nota que as coisas estão fora dos eixos há muito tempo. Tenho uma tese de que já vivemos distopias profetizadas por autores como George Owell e Aldous Huxley – apenas não percebemos.
Mas não vou me antecipar. A história da Bling Ring é conhecida e não há surpresas ou spoilers em narrá-la aqui: seis jovens americanos de classe média alta assaltaram casas de celebridades de Hollywood (como Paris Hilton, Orlando Bloom e Lindsay Lohan) entre 2008 e 2009 (jovens que, na época, tinham quase a mesma idade que eu), à caça principalmente de roupas e acessórios de marca. Os furtos seguiam um padrão simples e chegava até a ser impressionante a demora para os garotos da quadrilha serem pegos. A grande questão, porém, não foi a genialidade criminosa dos adolescentes: por que aqueles meninos e meninas, que tinham uma boa condição financeira, estavam envolvidos em uma situação daquelas? O que os motivava a agir de tal forma?

Talvez, refleti, os jovens da Bling Ring sentissem que bastava entrar na casa das estrelas porque essas estrelas não emitiam mais brilho algum. Talvez a Bling Ring, apesar de toda a frivolidade, representasse o início de uma reviravolta no relacionamento que os Estados Unidos mantinham com as celebridades.

P. 92

Li muitas críticas negativas ao livro, e creio que a razão para isso foi o fato de que as pessoas não sabiam de que se tratava de um livro jornalístico. A despeito das considerações que me deparei (“livro chato”, “enfadonho”), considerei o trabalho de Jo Sales muito bem fundamentado e elaborado. A intenção do livro – que anteriormente foi um artigo para a revista Vanity Fair, The Suspects Wore Louboutins – não era apenas narrar o desenrolar de uma história sobre um crime, mas também compreender as razões – externas e internas – que levaram os garotos a roubarem pessoas ricas e famosas. Para tanto, Jo Sales faz abordagens sobre a história dos Estados Unidos, traça um perfil dos adolescentes americanos (suas pretensões, seus sonhos, suas referências), usa literatura para fundamentar suas teses e desenha um retrato da sociedade estadunidense. O resultado não é bonito e, o mais triste, não é exclusivo dos Estados Unidos. Afinal, é muito comum conhecermos pessoas obcecadas por fama, dinheiro, celebridades, realitys shows, que dão alma e sangue para obter os almejados quinze minutos de fama.
E é nesse contexto que encontramos os garotos da Bling Ring. Obcecados por festas, criados em Hollywood; eles idolatram estrelas, marcas, estilos.  Usando roupas de celebridades, eles ser sentiam como uma de fato. Trajando-se com Prada, Chanel, Victor Hugo e marcas afins, eles faziam parte de um estilo de vida cheio de glamour, alcançavam o desejo de serem tão altos e intocáveis quanto os famosos que admiravam. Os adolescentes são um retrato perfeito – e triste – da sociedade deturpada que se originou da busca incansável pela fama, pelo sucesso financeiro. Alguns (como Alexis Neiers, uma membro do grupo que, a meu ver, é a caricatura perfeita da pessoa desesperada para ser conhecida) conseguiram, inclusive, seu próprio reality show em meio a toda a polêmica do caso.

Quero me sentir como eles parecem ser – disse Rubenstein – e, se eu tiver o que eles têm, então serei um deles. Se puder vestir o que eles vestem, meus problemas vão desaparecer, meu sofrimento vai sumir…

P. 65

O livro é dividido em três partes, cada uma abordando o caso de uma maneira diferente. Na primeira, nos deparamos com uma visão geral sobre o crime e, principalmente, com o retrato dos integrantes da Bling Ring e com as análises que Nancy Jo Sales faz sobre o assunto. Foi a parte que mais me cativou e que tinha os melhores quotes. Na segunda, conhecemos melhor as vítimas dos assaltos e a forma como as invasões às casas e os roubos foram feitos (é importante salientar aqui a participação de Nick Prugo, já que, de todos os integrantes da Bling Ring, ele foi o único que se mostrou disposto a colaborar com a polícia e a confessar seus crimes). Na terceira e última, temos o desfecho com um relato sobre as investigações e o decorrer dos processos judiciais (como não gosto muito de leis, essa foi a parte que menos me atraiu). Ao fim do livro, temos uma vaga noção de como os garotos estão – se cumprem penas, o que fazem das suas vidas, coisas do gênero – e a reflexão: o que está acontecendo com os adolescentes dessa geração?
Bling Ring: a gangue de Hollywood é uma leitura que, embora complicada aos que não são acostumados com esse gênero, considero essencial e edificante. É o tipo de livro que vai te fazer enxergar de maneira mais clara as razões para que as pessoas sejam tão obcecadas pela fama, pelo passageiro e pelo fútil, e como isso é pernicioso para a convivência social e para a própria realização pessoal. Ao final da leitura, é praticamente impossível não se sentir enjoado com a atual deturpação de valores – a questão que fica, porém, é: conseguiremos mudar alguma coisa desse panorama ou seremos consumidos por ele?

Fiquem com o tema do filme de Sofia Coppola, baseado no livro:

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