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[Resenha] Vitamin – Keiko Suenobu

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Definitivamente, Vitamin (Editora JBC, 2015) será um mangá que levarei um bom tempo para me desapegar, carregando comigo todas as impressões que ele me trouxe. Asseguro isso porque, mesmo após o fim das 185 páginas que contam a história de Sawako, reabri minha edição para reler trechos, analisar os desenhos, confirmar que aquilo havia, de fato, acontecido. E esse exercício foi tão doloroso quanto ler o enredo pela primeira vez.
Em Vitamin, conhecemos a Sawako, essa estudante de 15 anos prestes a fazer um vestibulinho, que a garantirá entrar num bom colegial japonês. No início do mangá, Sawako é a típica personagem de aventura shoujo: uma garota submissa, sem muitas características que a destaquem e que tenta agradar todo mundo, menos ela mesma. Isso se torna ainda mais claro quando, contra sua vontade, a menina aceita transar com o namorado em sala de aula e é surpreendida por um colega de sala. É aí que o inferno na vida da nossa protagonista começa.

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Mesmo sendo um mangá antigo (foi publicado pela primeira vez em 2001), é duro perceber que Vitamin continua atual, como se o tema retratasse a vida de uma estudante deste século. O bullying, aliado ao machismo, andam de mãos dadas na trajetória de Sawako, que vira a “piranha” da escola (tudo porque transou, vejam só. Isso não lhes parece familiar?). As amigas de antes se tornam verdadeiros campos minados, prontos para detonar e destruir nossa protagonista por puro e sádico prazer. A escola fecha os olhos para a violência que Sawako sofre, ignorando completamente o nível das agressões que a menina recebe e encontrando desculpas esfarrapadas para justificar os atos dos outros estudantes. Os pais não compreendem o motivo pelo qual a filha está desistindo de estudar, ficando cada vez mais presa dentro de casa. E Sawako, desamparada, não tem ninguém com quem contar, com quem conversar, a quem pedir ajuda.

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O traço de Keiko Suenobu é delicado como a maioria dos mangás shoujos, mas, ao longo do desenrolar da história, as linhas ficam mais grossas e as hachuras e retículas, mais escuras, artifícios esses que servem para nos mostrar o quão sufocante é a situação em que Sawako foi jogada e como ela está quebrada. As páginas mais rabiscadas nos mostram perfeitamente o poço em que a menina se perdeu e nos transmitem para a pele da personagem. Você se sente tão angustiado e sem saída quanto ela.
É um mangá tão real e tão dolorido que é uma leitura obrigatória. O bullying ainda é um tema que, por mais evidente e discutido que esteja atualmente, continua sendo ignorado. Não são raros os casos de adolescentes que se suicidam por conta das agressões sofridas na escola, não é de outro mundo escutar que a instituição de ensino, numa história como essa, ignora a realidade e não se motiva para resolver a questão. No caso de Sawako, a situação ganha ainda um agravante: ela é uma menina que cometeu o “pecado” de transar e para quem o lado da corda arrebentou. Se a temática do bullying ainda não foi suficiente para te ganhar, esse é um ótimo motivo: em tempos em que a realidade da mulher é discutida graças ao feminismo, Vitamin vira uma leitura básica. É a ficção conversando claramente com a realidade.
E não há melhor e mais empático professor do que uma boa obra verossímil.

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