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[Filmes] O que interpretei sobre Mãe! (com spoilers)

Expectativa normalmente é um fator decisivo pra qualquer tipo de coisa que você for fazer na vida. Na maioria das vezes, tento manter as minhas baixas para que não me influencie, negativa ou positivamente, em nada que faço ou consumo.
Mas quando se trata de Aronofsky é meio difícil para mim. Mesmo depois do controverso Noé, eu ainda mantinha minhas fichas no jovem diretor. Quando Mãe! teve suas artes de divulgação exibidas, senti que havia algo extremamente incrível naquilo – em Jennifer Lawrence, bela como sempre, pintada em uma floresta com seu coração recém-arrancado em mãos. Era extremamente catártico! Passei algum tempo tentando desvendar o que significaria aquilo, se não sairia decepcionado.
Devo ressaltar que cada um pode ter sua própria interpretação para o que vai ver. Nada é entregado de mão beijada, e é a vivência pessoal que vai revelar o que o filme pode significar para você. Esse texto foi o que compreendi do filme e, sim, vai ter uma chuva de spoilers. Se você ainda não viu, aconselho a repensar se vai clicar no botão abaixo. É por sua conta e risco.
Avisos dados, então vamos lá.

A fita é extremamente confusa propositalmente: o filme começa com um fim, uma moça em meio as chamas, um olhar de desprezo e logo Javier Bardem nos saúda com uma bela cena de felicidade e graça. Uma graça divina.
Mãe!, como falei ali em cima, é uma obra de interpretação – ela te faz sorrir, te faz querer chorar, te confunde e te destrói. Você pode ter várias ou até mesmo achar o filme ruim, mas dificilmente não sairá impactado.
Jennifer Lawrance é a representação da mãe-terra, nossa provedora e única casa (genialmente representada), enquanto Javier Bardem é Deus e nosso “pai”. Após o prólogo do filme, onde este se encontra ausente (período de descanso divino), o casal recebe uma visita. Trata-se de Adão, o primeiro homem. A terra não consegue aceitar essa novidade, mas tenta tratá-lo bem e consegue até certo tempo. Deus, com sua infinita bondade, ama incondicionalmente o visitante (causando extremo ciúmes na sua esposa, que não se acha boa o bastante para ele). Ele é escritor, assim como Deus é descrito “Escreve certo, por linhas tortas”, o que combina bastante com a tipografia do filme.
Logo após uma noite extremamente caótica em que Adão passa mal, sua costela é revelada com uma ferida, então você deve imaginar quem apareceria logo em seguida na casa: Eva. Michelle Pfeifer conduz um discurso bastante invasivo para com a terra, o que a deixa se perguntando sobre o amor que Deus teria com ela, e tenta a todo custo entrar na sala proibida do escritor, uma referência ao Jardim do Éden. Este, por sua vez, é violado pelas visitas, o que causa um extremo caos e fúria de Deus.
Adão está morrendo e seu testamento é motivo de visita de seus dois filhos, alegorias a Caim e Abel, que obviamente lutam até que Abel morra pelas mãos de Caim, deixando a marca de sangue no chão que perdura durante o filme inteiro, simbolizando a marca de Caim na terra.
Em seu velório, Deus recebe mais convidados, fazendo a terra ficar mais e mais incomodada com tantos visitantes indesejados. Deus, por outro lado, já os recebe de bom grado e acha tudo aquilo uma festa de glória a ele próprio. Até que, por um deboche com os convidados, uma pia estoura simbolizando o dilúvio, e mais uma vez Deus expulsa seus filhos de casa. A partir deste momento, você já está nas mãos da catarse final.
Deus engravida a terra, o amor mais inspirador de sua existência. A terra se sente contemplada com o amor de Deus, ele a ama e sua prova de amor foi ter depositado seu único filho em seu ventre. Logo, Deus tem a inspiração mor para escrever a bíblia, a obra prima do escritor e seu motivo de orgulho. Nesse momento, você já está sentadinho no colo do Aronofsky e ele vai dizer no seu ouvido: “Filho, te prepara que agora é só chibata”.


Temos possíveis cenários aí que simbolizam o Êxodo, o Novo Testamento e Apocalipse. Uma multidão adorando a deuses distintos; uma pontual interpretação de Lúcifer, o anjo caído; um caos estirado em que só cada um em seu particular pode pensar.
E eis que nasce Jesus. Essa cena não apenas controversa, como também cheia de simbologia, é incrivelmente orquestrada pela nossa protagonista, que já sabe o destino do seu filho pródigo. É chocante, é conflitador e é extremamente claustrofóbico o fim que Deus destina ao seu filho. Jesus é sacrificado, seu corpo é consumido e a terra não consegue aceitar aquilo. Mesmo que Deus fale para ela “perdoe”, sabemos o peso da maternidade e a luta conflitante dos ideais. Mãe causa seu próprio fim, ateando fogo em si mesma e nos entregando mais uma vez o fim cíclico e belo que abriu o filme.
Aronosfky mais uma vez me surpreendeu, me deu camadas de profundidade e uma sutileza no caos que pincela esse quadro maravilhoso que faz sua mente grudar no teto, sem ser expositivo e nem tolo.

 

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2 Comments

  • Reply Roberta outubro 4, 2017 at 12:37 pm

    Menina. Esse filme ta rendendo papos até hoje. Maravilhoso

    • Reply Kamile outubro 4, 2017 at 5:29 pm

      Ninguém consegue superar esse filme, help!

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