Diario

[diário] o fantasma sobre os ombros

existe um filme tailandês de terror do qual gosto muito e que vi quando tinha uns treze anos. o que eu achava melhor era o final, quando descobríamos que o espírito maligno que assombra os personagens estava, na verdade, sentado sobre os ombros de um dos protagonistas. era uma cena grotesca, bem pensada e que nunca esqueci por motivos autoexplicativos.

corta para hoje. recentemente, conversando com minha terapeuta, ela disse que racionalizo muito os meus sentimentos e que, de certo modo, minha ansiedade segue pelo mesmo rumo. sem querer, talvez por culpa da lua em capricórnio, acabo dando um viés racional para algo que é totalmente o oposto. costumo dizer: “ah, tenho ansiedade generalizada” e só. não dou cara para o que sinto, não faço um fluxo de consciência à Clarice Lispector. e ela, minha terapeuta, pediu que eu desse uma forma à bendita, como naquele vídeo em que a depressão é retratada como um grande cachorro preto.

pois bem, resolvi seguir o conselho. minha ansiedade seria como o espírito do filme que citei lá no começo no texto. ela não pesa, é incorpórea, mas está lá. ela vê o que faço, para onde vou e, quando quer, decide que não há muito problema em se materializar – às vezes um pouquinho, só para se fazer pesada, e às vezes resolve ter uma tonelada para atrapalhar as vida mesmo. e viver com muito peso sobre os ombros não dá certo. se já é praticamente impossível andar com uma mochila cheia de coisas nas costas, quem dirá com um espectro de formas humanas?

aí surgem os sintomas clássicos: músculos tensionados, respiração comprometida, cansaço eterno, dores de cabeça… você se sente comprimida, esmagada, andar fica difícil, viver mais ainda. é tão pesado que tudo o que se quer é poder compartilhar com alguém um pouco do peso. e mesmo quando ela está leve, você sabe que está ali, aquela presença que continua tensionando os seus ombros de alguma maneira por simplesmente existir.

não tenho mais problemas em dizer que sofro de ansiedade, não quando passei um ano e meio trabalhando num lugar onde todo mundo perguntava por que minha pele estava tão irritada, cheia de erupções e feridas. acabei explicando com sinceridade: “bem, tenho ansiedade”. como já disse, não tenho problemas em explicar o que tenho – meu verdadeiro tormento é lidar com as perguntas que surgem depois: “mas por quê? você é uma mulher linda, tem um relacionamento estável, terminou uma faculdade, está fazendo outra, lançou livros…?”.

é difícil para as pessoas compreenderem que a gente não escolhe carregar o fantasma sobre os ombros. se eu pudesse, jamais sentiria o seu peso e as consequências que ele me traz. jamais teria coçado a minha pele a ponto de ferir, jamais teria tido problemas de memória ou mesmo esquecido as coisas no auge da crise (já contei a história de quando joguei, sem querer, um rolo de papel higiênico no lixo porque não prestei atenção?). a ansiedade me atrapalha de muitas maneiras: seja me fazendo não lidar bem com sentimentos como a raiva, quando geralmente travo; seja me fazendo evitar determinados lugares por medo; seja me causando brancos em apresentações da faculdade; seja me dando dor de barriga quando estou muito nervosa… são tantas reações que enumerar aqui fica até difícil (e quem tiver aí vai completar a lista fácil, fácil).

talvez essa seja uma das partes que mais dói, não receber a compreensão de que você não tem qualquer tipo de controle sobre o fantasma em seus ombros. ele é que te guia, que move a sua cabeça para a direção que bem deseja, que fala em seus ouvidos o que quer que você faça. é cruel dar a entender para uma pessoa que ela pode escolher sofrer ou não. ainda que haja vitórias em sua vida (e pelas quais você é feliz e agradecido), não dá para negar a existência daquele espectro e fingir que tudo está bem. não, não está.

há certos encostos que não dá para exorcizar, e esse é um deles. é preciso aprender a lidar com o fantasma, fazer algo que o torne um pouco mais leve, mais controlado – mas é aí também que reside o desafio. a máxima de um dia após o outro é válida também para quem lida com o espectro da ansiedade. há dias em que não sinto o seu peso, há outros em que preciso forçá-lo a ficar mais leve e outros em que apenas aceito a sua tonelada. alimento a esperança de poder controlar de vez o meu fantasma, mas, até lá, vou lidando do jeito que eu posso.

um dia após o outro, e sempre isso.

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