Diario

[diário] oi, eu tenho transtorno alimentar

Mille-Chan

corta para 2001. em meados desse ano, quando a Sandy se aventurava na sua primeira novela, Estrela-Guia, atingi o nível de obesidade infantil. eu tinha apenas oito anos, dez a menos que minha musa, e recebi minha primeira dieta restritiva. sem doce, sem Fandangos, sem refrigerante. já não lembro mais como era minha alimentação naquele tempo, só que gostava muito do endocrinologista que me atendia, um tal de Dr. Celso, e que às vezes barganhava o lanche com minhas amigas na hora do recreio porque não suportava aquele biscoito salgado que minha mãe me mandava levar na lancheira. se eu seguisse tudo direitinho, quem sabe não poderia ser bonita feito a Sandy? magra e pequena feito a Sandy. ela tinha uns vestidos bem legais na época da novela.

de 2003 para 2004, quando estava perto de completar meus onze anos, veio mais uma dieta. acho que essa não consegui segurar por muito tempo. tenho fotos dessa época e não parecia que eu estava acima do peso. só tinha a velha barriguinha que toda minha família gostava de apontar. eu era taxada de gorda o tempo todo, e gorda não era lá um elogio no início dos anos 2000.

e veio mais outra em 2008, quando tinha meus quinze anos. hormônios em fúria, interesse em meninos, eu não parecia a escolha mais acertada para um garoto. tinha a maldita barriga. era farta de seios. estava só poucos quilos acima do que era adequado para a minha idade, coisa pequena mesmo, mas precisava fazer uma dieta (olha lá ela de novo) para entrar num peso adequado. para não me sentir a pior espécie  de uma garota do ensino médio. coisa que, mais uma vez, minha família vivia ressaltando. eu não era bonita sendo tão curvilínea, com tantas gordurinhas, mas algum dia eu ficaria. bonita e magra o suficiente para fazer todos os cosplays com os quais sonhava. bonita e magra o suficiente para, por exemplo, fazer cosplay da Sailor Jupiter.

já perdi as contas de quantas e quantas vezes tentei entrar numa dieta. restrição alimentar é algo que faz parte da minha vida desde que me entendo por gente (ou, se preferir mensurar em anos, desde que a Sandy fez uma novela capenga, com um papel ridículo e mal-interpretado). comida sempre foi uma inimiga; comer era (e é) um ato de guerra e uma mesa de jantar, um campo de batalha. eu não gostava de comer na frente dos outros, geralmente as pessoas olhavam para o meu prato ao invés de se preocupar com o que havia no seu. família, amigos, desconhecidos. todo mundo gostava de apontar o dedo para meu corpo. todo mundo ainda gosta, para ser sincera. família, desconhecidos, colegas de trabalho. tive uma chefe que dizia que eu seria bem mais bonita se fosse mais magra. tive outra que comparou minha beleza com a do meu parceiro. como se ele fosse bonito demais para uma pessoa gorda feito eu.

desde 2012, quando minha mãe faleceu, vivo numa luta com a compulsão alimentar. naquela época (e ainda hoje), não conseguia viver numa dieta restritiva, assim como descontava minha frustração com a vida adulta, meu luto e minha solidão num prato de esfihas e numa poça de doce. gastei tanto dinheiro com comida que não gosto nem de pensar na soma que saiu da minha conta bancária ao longo desses anos. talvez, algum dia, eu faça as contas.

são seis anos vivendo no inferno de não saber lidar com a comida, de me sentir culpada por comer. seis anos tentando explicar por que engordei quase trinta quilos, procurando alternativas e mais alternativas para não viver aquela cena d’O Conto da Aia, em que as outras aias apontam o dedo para Janine. como se eu precisasse dar alguma explicação, alguma justificativa. minha antiga terapeuta vivia dizendo que sobrepeso não é saudável para ninguém, mas não me ensinava como lidar com minha compulsão. na verdade, faz pouco mais de um ano que entendi que tenho compulsão alimentar. e pouco mais de uma semana que recebi o diagnóstico de transtorno alimentar.

foi um soco bem dado. para quem acreditava que transtorno alimentar era apenas Ana&Mia, perceber que a compulsão também é um tipo de transtorno foi bem pesado. mas ao mesmo tempo que foi pesado, foi libertador. me mostrou que essa história de “força, foco e fé” (ou a ordem que você preferir) é balela, cantiga de ninar. “força, foco e fé” não existe quando você tem um problema dessa gravidade. me mostrou que posso me sentir menos culpada quando um parente tenta brincar com a minha cara, dizendo que não posso tomar um sorvete porque estou de “dieta”. ou quando aquele desconhecido que estudou comigo no primeiro semestre da faculdade me para no meio do shopping para falar que estou mais “fortinha”. ou que posso, sim, mandar minha ex-chefe, aquela que acha meu parceiro mais bonito que eu por causa do meu sobrepeso, para o local onde o sol não bate.

não é fácil lidar com um transtorno dessa magnitude. a compulsão prejudicou não apenas as minhas articulações, como também deu um hadouken na minha autoestima e deixou vazia minha conta bancária. não é fácil ver que são poucas as pessoas que acreditam no seu problema, que não vão te julgar. e, o mais complicado ainda, é encontrar soluções para não deixar a compulsão te vencer. para erguer um escudo de latão, todo machucado, e dizer: “not today, satan“.

minha compulsão é uma das ramificações do meu transtorno generalizado de ansiedade (TAG para os migues). em um dos meus momentos de crise, acabei desabafando no instagram. recebi um feedback enorme e que me surpreendeu. muita gente também usa a comida como válvula de escape, alguns em maior intensidade do que outros. muita gente teve alguma perda e alguma frustração que tentou compensar na forma de um pote de sorvete, em oito pedaços de pizza, em uma barra de chocolate (como acontece muito comigo). e se eu só queria gritar para tirar de mim a raiva que sentia contra a minha cabeça e contra o peso que, no meu caso, está ferrando a minha saúde, terminei aquela sexta-feira pensando que a gente precisa se ajudar. que o problema é mais comum do que eu imaginava, que eu não era a única a usar a comida como uma forma de aliviar todas as grandes injustiças do universo. mas erguer o escudo de latão requer muita coragem. requer olhar para dentro, se deparar com episódios bastante dolorosos, fazer perguntas e encontrar alternativas que parecem tão difíceis de encontrar quanto o pote de ouro ao final do arco-íris. enfrentar um transtorno alimentar é tão difícil quanto enfrentar o último chefão do jogo do Mário.

basicamente, o que eu quero dizer é: oi, meu nome é Kamile. tenho 25 anos e tenho transtorno alimentar. desconto minhas frustrações e dores em comida há mais tempo do que posso mensurar e sofro com isso. eu não sou a única. seu colega de trabalho tem, assim como o seu vizinho. assim como o seu primo de quarto grau que mora no Acre. por isso, seja gentil. acima de qualquer crença, em qualquer situação, seja gentil. pesquise, estude, tente entender como funciona um transtorno alimentar. e não me faça pensar em você enquanto escuto Mean, da Taylor Swift.

e para quem tem o mesmo problema que eu, estamos juntos. mande o “força, foco e fé” para a baixa da égua e lembre-se: é tudo questão de baby steps.

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