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[Filmes] Apenas virgens podem se aproximar de unicórnios

Todos conhecemos a figura mitológica do unicórnio: um cavalo com um único chifre em espiral, geralmente branco, extremamente dócil e que só pode ser domesticado por donzelas puras. Mas, entender o significado dessa figura é essencial para digerir o filme indie Eu Acredito em Unicórnios (2014), da diretora Leah Meyerhoff.

I Believe in Unicorns from Gravitas Ventures on Vimeo.

Eu Acredito em Unicórnios não é um filme fácil de ser encontrado – ainda que exista na Netflix americana, por aqui só encontrei para aluguel e compra no i-Tunes. Nem mesmo o rosto conhecido de Natalia Dyer (a Nancy do Stranger Things), que faz nossa heroína romântica, trouxe alguma popularidade à obra para as bandas de cá, o que considero uma pena. Mesmo que não seja o tipo de filme que  agrade todo mundo, tem uma estética belíssima, que lembra fotografias analógicas, e um tema espinhoso, que precisa ser debatido principalmente com adolescentes.

O plot

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A história gira em torno de Davina, uma adolescente cuja vida não é a das mais fáceis. Logo no início do filme, durante a apresentação dos créditos, a direção nos mostra uma série de gravações explicando o passado da personagem principal para que entendamos o que vai acontecer durante os 88 minutos de narrativa. Abandonada pelo pai ainda bebê (inclusive, nos takes iniciais, não há qualquer indício de uma figura masculina), Davina precisa cuidar da mãe deficiente física, de movimentos extremamente limitados, e assumir a responsabilidade de casa. Para compensar a vida real, a menina cria seu próprio mundo fantástico, cheio de unicórnios e contos de fadas. Refugiada nesse universo, ela procura dar algum sentido ao seu dia a dia, e compreendemos como sua cabecinha funciona através de cenas em stop-motion que mostram suas histórias com bonecos. Tudo envolvendo Davina é muito doce, e fica claro para o espectador que a personagem ainda transita entre infância e adolescência.

Até que ela conhece Sterling.

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É fácil nos encantarmos, como Davina, por Sterling; ele é extremamente bonito, mais velho, charmoso e bad boy, o tipo de garoto por quem é muito fácil ter uma queda quando se tem dezesseis anos. À primeira vista, parece um príncipe encantado cheio de atitude, porque ele não vacila. E tudo também começa a acontecer rapidamente – de um primeiro beijo para o primeiro sexo oral, o espaço de tempo é de minutos. É aqui, também, que temos os primeiros indícios de que, aparentemente, Sterling não é tão encantador quanto pareceu de primeira, e a direção não poupa detalhes para nos mostrar que a imagem que Davina construiu do rapaz não é uma das mais fidedignas.

O relacionamento dos dois fica intenso a ponto de Davina ter o seu primeiro momento de rebeldia juvenil: cansada de assumir tantas responsabilidades, ela convida Sterling para uma road trip. Ele, que também tem suas questões pessoais rapidamente contadas, aceita. A partir daí, não há mais qualquer outro personagem no filme além do casal protagonista, nem mesmo adultos que estranhem aqueles dois adolescentes com o pé na estrada. É nesse ponto que a narrativa começa a ficar mais e mais dolorosa.

Rito de passagem

Não foi de primeira que lembrei que unicórnios só se aproximam das donzelas puras. Passei algumas horas digerindo o filme para entender que, acima de um relacionamento tóxico e abusivo, é uma história que narra a dor de perder a pureza. E não falo aqui apenas da virgindade, do conceito que poda a sexualidade de uma mulher, mas da perda da inocência típica da infância. Davina vivia num mundo de fantasia que não parecia conhecer a maldade e, de repente, surge esse dragão negro ameaçando o seu unicórnio (analogia essa lindamente mostrada em stop motion). Ela sonha com seu relacionamento com Sterling, com os beijos dele, e ignora quando ele não a liga, ou faz vista grossa para os furtos que o rapaz comete. Uma das cenas mais emblemáticas para mim é quando, no início da road trip, ambos entram numa loja de conveniência para assegurar alguns suprimentos: enquanto Davina gasta seu dinheirinho comprando doces, dinossauros de brinquedo para enfeitar o carro e um esmalte vermelho, Sterling vai roubando alguns pacotes de comida.

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Mesmo com tanta doçura (vi um cara no Filmow comentando que o filme é tão doce que enjoa), com cenários americanos lindíssimos e uma fotografia que remete a sonhos, começa a ficar difícil acompanhar a história, principalmente quando vemos o esforço da personagem para manter seu conto de fadas, para assegurar a imagem de príncipe encantado que teceu de Sterling. De pouquinho em pouquinho, os eventos vão ficando mais intensos e, consequentemente, dolorosos, a ponto de não conseguirmos mais não nos sentir tensos pelas violências que vão surgindo com o correr do filme.

História e fotografia entram em conflito, o que vai aumentando o nosso desconforto: como pode uma fotografia tão linda, cheia de tons pastéis, retratar um relacionamento tão perturbador? Se a fotografia nos acalma e nos transporta para um ambiente onírico, típico dos contos de fadas que Davina gosta de contar, vem o roteiro e nos faz entender por A + B que não há beleza naquilo que está sendo narrado. O primeiro amor, que chega de maneira tão avassaladora para a protagonista, vai se transformando em uma experiência traumática. Para quem já passou da adolescência e ficou um pouco mais calejado pela vida, a narrativa do filme consegue fisgar, mas acredito que o impacto maior é para aqueles que, infelizmente, viveram um relacionamento abusivo. Há a anulação de si em prol do outro, o momento em que se acredita que aquele sentimento incômodo perante atitudes do parceiro não tem fundamento, a crença de que, apesar dos pesares, tudo vai ficar bem. Os momentos finais são, principalmente, os mais tenebrosos.

Não é fácil deixar a Terra do Nunca porque você não é mais bem-vindo ali, perder a capacidade de voar com pó de fada. Não é fácil perder essa pureza que nos aproxima de unicórnios. Mas, infelizmente, acontece e é necessário. Faz parte do amargor de crescer. Com um pouco de sorte, porém, é possível reconstruir a realidade com um pouquinho de magia, mesmo que não seja mais como antes.

E aí? Indica?

Eu Acredito em Unicórnios é, de fato, um filme agridoce, lindamente realizado. Admito que não é um filme que tem possibilidade de conquistar uma série de fãs, porque não tem pressa para acontecer e há muitas intervenções de monólogos internos da Davina, além de cortes para mostrar como ela interpreta os eventos através do seu olhar sonhador. Mas é uma obra necessária principalmente para os adolescentes. Por mais que o primeiro amor seja intenso, no momento em que ele começa a te trazer dor, é preciso pular fora – mesmo que, para isso, seja necessário deixar sua inocência para trás.

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