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[diário] pausa de um ano para uma cabeça sadia

no início de 2018, escrevi este texto aqui. foi um desabafo que não tinha a intenção de sair bonito, era apenas a vontade de colocar para fora algo que estava martelando na cabeça. lendo agora, achei um bom texto. sincero, pelo menos. e não é todo post de blog meu que olho para trás e consigo gostar.

cheguei ao final de 2018 tendo me acertado, ainda que um pouco, com a escrita. erguemos as bandeiras brancas, eu e ela, e nos propusemos um acordo de paz, mas não sem antes lavar a roupa suja. e tinha muita coisa para colocar na lavanderia. escrever, até pouco tempo atrás (como o meu post pode mostrar), havia perdido o sentido. pareci criança de seis anos, cheia das perguntas. por que eu estava escrevendo? por que eu queria tanto isso? por que eu escrevia, a ponto de lançar três livros, passando por uma série de frustrações nas três vezes?

me permiti passar quase um ano sem inventar de abrir o Word – digo quase porque, em agosto, apareceu um trabalho que me exigia isso e, precisando de dinheiro como qualquer boa brasileira, só fui. quase um ano sem pensar em histórias, sem ter a preocupação de produzir alguma coisa porque sim. se batia a vontade, ia lá e fazia, sem alarde. o antepenúltimo post deste blog, esse aqui, surgiu assim. demorei meses para colocá-lo no ar, apenas respeitei a minha vontade de botar para fora as impressões de um filme que havia mexido comigo em muitos sentidos. como li novamente e gostei, resolvi divulgar.

e aqui entramos no terreno que eu queria. parece óbvio, mas demorei muito para entender o que deu tão errado — principalmente no último ano. para este texto chegar a você, ele precisa sair de mim. isso é claro, tão claro que chega a ser idiota apontar. mas não funcionou assim comigo. durante esse período desesperada, dando murro em ponta de faca e mais perdida do que o Cascão e o Seu Cebola, não havia uma resposta que me fizesse entender o que estava errado. e foi isso aí que falei acima o grande X. eu não estava me considerando no processo.

Kamile em 2017 e 2018.

comecei a escrever pequena, porque não tinha irmão ou amigo com quem brincar. filha única de pais separados, se alguma coisa de muito ruim acontecesse comigo, a culpa recaía na minha mãe. para evitar, cresci sem muita liberdade de ir e vir. só me restavam as histórias. se eu gostasse demais de uma tarde brincando de boneca, botaria no papel. às vezes, não precisava nem ter a ideia brincando de boneca, o enredo só vinha. guardo até hoje os meus cadernos com os primeiros escritos e sempre conto esse fato quando fazem a clássica pergunta: “como começou?”. e foi isso que esqueci no último ano. escrever não deveria ser um processo, pelo menos para mim, destinado a publicar (ou tentar publicação) numa grande editora, vender livros, agradar um ou outro peixe grande do mercado editorial. era algo meu. era o meu contato com uma parte mais interna minha. se eu não tinha com quem brincar, eu mesma me tirava na roda e cirandava sozinha. foi por isso que comecei a criar minhas histórias.

como disse, parece óbvio, mas não foi. 2017 que o diga. comprei livros sobre escrita criativa e literatura, paguei cursos, me desesperei. técnica, técnica, técnica. não era sobre isso e nunca foi. técnica ajuda, mas sem sentimento não rola. acontece que, às vezes, a gente se esquece de conversar consigo mesmo. é normal. a vida cobra, o trabalho pede que sejamos menos sensíveis, que separemos o profissional do pessoal. a conta bancária esvaziando nos faz entrar em desespero e a gente aceita a primeira oportunidade que aparece, por mais cilada que seja. e a gente se esquece, deixa de se escutar. e quando o contato com nossa parte interior se rompe, ficamos à deriva, procurando por algo externo que nos resgate quando, na verdade, o ponto de apoio sempre fica na parte interna. foi isso que aconteceu comigo. agora entendo.

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