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[Resenha] Golem e o Gênio – Helene Wecker

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Golem e o Gênio (DarkSide, 2015), como o próprio título denuncia, narra a história dessas duas criaturas mágicas que se encontram ao acaso numa Nova York do início do século XX. De um lado, temos Chava, a Golem, uma mulher feita de barro que foi criada para ser a esposa de um jovem alemão que está tentando a sorte na América. No entanto, após um determinado acontecimento, a Golem aporta sozinha nos Estados Unidos, sem ter a quem recorrer.

Do outro lado, temos Amhad, o gênio, essa criatura de fogo e espírito livre que, depois de mil anos preso dentro de um jarro de azeite, se vê livre na América dos anos 1890. Libertado por um latoeiro, o gênio se vê trancafiado em sua forma humana, sem qualquer chance de se libertar ou memórias que possam lhe explicar o que aconteceu.

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Cotidiano, Crônicas, Literatura, Literatura Nacional, Livros, Os Olhos de Ravena, Outubro, Yume

[Literatura] Porque desperdiço meu “talento” escrevendo livro Malhação: e porque eu gosto tanto

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(A Pequena Sereia, por Arthur Rackham)

Recentemente, estava eu conversando com uma pessoa querida sobre literatura – saliento que eu gosto bastante de conversar com esse amigo sobre livros, pois temos gostos relativamente parecidos  e isso gera boas discussões. Eis que, durante um momento acalorado da conversa, surge a seguinte afirmação por parte dele:

“Não sei porque você desperdiça seu talento escrevendo livro Malhação”

Minha primeira reação foi ficar calada, meio surpresa, meio espantada, meio sem saber como reagir. Não é de hoje que eu sei que meu amigo não aprecia literatura voltada para jovens, então não fiquei tão abismada pela afirmação. A questão aqui é que eu não entendi se isso foi um elogio, uma crítica ou uma desvalorização federal ao meu trabalho. Só sei que sorri de forma amarelada e continuei conversando sobre outros assuntos, evitando voltar o foco da conversa para mim.
Mas o fato é que isso me fez pensar. E ao invés de me sentir elogiada por ser considerada talentosa, me senti extremamente ofendida. Triste até, porque jamais me senti desperdiçando tempo por dedicar minhas duas publicações (incluindo a terceira que está por vir) a um público adolescente. Não fiquei com raiva do meu amigo porque eu respeito a sua opinião, porém é inevitável não se sentir mal por isso.
Foi então que eu resolvi dissertar um pouco sobre o assunto – e explicar porque eu dedico minha escrita a uma faixa etária que é tão desprezada.
Vamos começar pelo ponto que: não acredito em talento nato. Se tem uma coisa que a faculdade de Design me ensinou é que talento é algo pífio se você tiver predisposição e boa vontade. Se você gosta de escrever, escreva. Se gosta de desenhar, desenhe. Existirá um momento em que a prática intensa e o estudo vão te tornar um artista melhor. Mas se você faz tudo isso com maestria desde os três anos de idade, só posso te dar os parabéns e afirmar que você é um caso entre mil. Para a maioria das pessoas, a coisa só funciona com muito esforço.
Por isso, eu não me considero exatamente talentosa – me considero muito, muito esforçada. Há quem diga que eu sou boa escritora, mas, se pegarem os cadernos em que eu escrevia minhas histórias de bruxas e alienígenas com onze anos, com certeza iriam querer chorar.  Logo, não nasci como a Kamile de 22 anos: eu pratiquei muito para chegar no meu nível atual e levei anos para isso.
Salientado isso, vamos ao segundo ponto: não tenho o menor interesse em ser escritora academicista. Admiro quem escreve pela paixão à linguagem e se empenha em fazer construções lexicais extremamente bonitas, prezando muito mais pela linguagem do que pela história em si. São textos bonitos de se ler e eu gosto bastante de alguns, mas não esperem que eu reproduza isso – e simplesmente porque não me interessa. Posso ler e gostar de trabalhos que sigam essa linha, porém não é meu estilo e não será algo que farei. É como gosto musical: não me esperem me encontrar num show de forró ou num baile funk, assim como não esperem que eu lance um livro que será aclamado como obra prima pelos acadêmicos. Não tenho a menor vontade.
Terceiro ponto: livros com temática infanto-juvenil e juvenil são extremamente importantes para o crescimento do leitor. Você pode até não gostar de livros direcionados para essa faixa etária e ter começado suas leituras com Dostoiévski, mas nem todo mundo é como você. Tenho uma amiga que perdeu o prazer pela leitura quando a escola a obrigou a ler clássicos literários sem antes prepará-la como leitora para essas obras, mais ou menos quando ela tinha treze anos de idade. Fico me perguntando se, caso ela tivesse continuado a ler os livros do Pedro Bandeira e da Giselda Laporta Nicolelis – dois autores que nós líamos muito, isso teria acontecido.
O leitor que está amadurecendo precisa de livros que conversem com a sua faixa etária, que possam despertar o prazer da leitura para, futuramente, ele conseguir ler os clássicos sem sofrimento e apreciando o que está lendo. E se ninguém se propuser a escrever para esses jovens, quem o fará? Quem vai mostrar a um adolescente que ler é tão legal quanto ir a um cinema? Quem vai poder mostrar a essa garotada heróis que passam pelas mesmas dúvidas e transformações da adolescência? E outra: será que trabalhos de grandes escritores juvenis têm menos qualidade literária por serem direcionados a um público jovem? Será que devemos desprezar o que C.S. Lewis, J. K. Rowlling, Pedro Bandeira, Paula Pimenta, Rick Riordan, John Green e Babi Dewet fizeram porque eles são para pré-adolescentes e adolescentes? Eu acredito que não.
Dito isso, entro no meu último ponto: eu gosto MUITO de trabalhar com adolescentes. E essa é uma das principais questões a meu ver. Eu gosto de ver minhas priminhas de doze e onze anos falando que querem ler meus livros, interessadas pelo assunto deles. Eu gosto de quando a irmã mais nova de uma das minhas melhores amigas fala para mim que gostou tanto de Outubro quanto de Yume e fica super feliz em conversar sobre livros comigo. E um dos momentos mais emocionantes para mim como escritora foi conversar com minha leitora de dezoito anos e ver que ela ficou feliz por me encontrar – e que havia amado Yume. Essas são coisas que aquecem o meu coração e que me fazem sentir que meu trabalho valeu algo, sim.
É uma escolha minha “desperdiçar meu talento com adolescentes”. Não que isso implique que tudo que eu produzir será direcionado para esse público – até porque, como escritora e amante da linguagem, gosto sempre de me explorar e descobrir até onde posso ir -, mas eu escolhi conversar com esses meninos através dos meus livros, poder incentivá-los à leitura da mesma forma que fizeram comigo quando eu tinha a idade deles. Posso não ser a mestra nas construções sintáticas ou uma pessoa que será aclamada pela academia, porém, desde que comecei a escrever, jamais pensei em ser elogiada como uma nova Machado de Assis: eu gosto de contar histórias e isso é tudo.  E enquanto eu tiver pessoas ao meu redor, materializadas no papel e prontas para ouvir o que tenho a dizer, continuarei contando minhas histórias – com teor de Malhação ou não.

Crônicas, Literatura

[Literatura] Querida Saraiva, queria te dizer algumas coisas.

Querida, Saraiva, adoro você. Amo ir à sua loja – principalmente quando tenho dinheiro para sair de lá cheia de sacos. Amei ter lançado o meu primeiro livro em sua instalação cearense. Adoro acompanhar as novidades e promoções e adoro mais ainda o seu site. Porém, admito que fiquei profundamente desgostosa com o teor dessa mensagem. Ainda que eu saiba que esse posicionamento não represente a franquia como um todo – assim espero, gostaria de salientar alguns pontos pelos quais o seu social media errou – e feio.
Começamos pelo fato de que minha edição de A Culpa das Estrelas saiu da sua loja, numa das várias promoções online que já fizeram. Serviço bom, o livro chegou lindo e rapidamente em minhas mãos. Li em dois dias e fiquei satisfeita com a minha compra. Portanto, partindo desse princípio, imagine o quão surpresa fiquei ao ver uma mensagem como essa em sua conta no Twitter. Querida Saraiva, não me leve a mal, mas eu jamais tive vontade de ler As Crônicas de Gelo e Fogo – inclusive, vendi a edição que eu tinha em casa e que nunca saiu do plástico. E não sei onde existe uma placa classificando a obra de George Martin como cultura em detrimento da obra do John Green, ou que amo ler menos por causa disso.
Aí, eu entro em outro ponto de discussão: por que o sujeito dessa frase é uma menina? Compreenda, Saraiva, que eu, Kamile, não consigo mais classificar uma obra destinada a um gênero. Isso é tolice. Não é porque o menino não tem uma vagina que ele não possa ler e gostar de Meg Cabot, assim como não é porque a menina não possui testosterona a mais que ela não goste de autores de mangá shonnen. Assumo que existe um público consumidor que pode se orientar pelo gênero, mas, na livraria, pega aquele volume quem quer. Livros não têm sexo, porque quem quer ler vai fazê-lo independentemente da própria genitália. E esse seu posicionamento salienta um pensamento machista que vivo me deparando em qualquer canto que eu vá, com qualquer obra que é enxergada como “livros para menina” porque possui um teor de romance a mais ou porque a protagonista é uma garota. Quer dizer que um rapaz não pode se emocionar com o romance de “A Culpa é das Estrelas” e abominar a violência da série do Martin? Isso é proibido?
Você sabia, Saraiva, da quantidade de gente que torce o nariz para livros juvenis? Da quantidade de gente que ri de quem assume abertamente que gosta de Crepúsculo ou obras que sejam mais românticas? É bastante comum, se quer que eu fale a verdade. Livros juvenis vivem sofrendo detrimento na grande massa, com sua qualidade posta a menos que outros livros aclamados por um público mais velho. Imagine, então, livros que trabalham mais um romance entre dois protagonistas adolescentes? Há muito preconceito contra esse gênero e, sinto dizer, querida Saraiva, que a sua afirmação endossou um coro preconceituoso, que provavelmente aplaudiu e riu de quem prefere o John Green. “Se até a Saraiva está falando isso, é porque é verdade, não é?”
Querida Saraiva, finalizo dizendo que eu, como consumidora da sua franquia há anos, me senti ofendida. Não sou obrigada a ler George Martin porque, para vocês, ele é cultura e o John Green não. Livros como A Culpa das Estrelas não valem menos que um A Guerra dos Tronos e cultura não é apenas o que uma pessoa considera que seja. Espero que nunca mais encontre uma mensagem dessa em suas redes sociais – porque senão, sinto dizer, irei procurar Cultura em outro lugar e de preferência, em franquias que prezem por isso logo no seu próprio nome.

Crônicas, Diario, Literatura, Livros

[Diário] O ato (nada) glamouroso de escrever

(Imagem pega aqui)

O sentido de eu escrever sempre me vem à cabeça. “Por que eu escrevo?”; “Por que eu me sinto tão bem amontoado uma série de palavras, reunindo uma série de frases, criando uma série de parágrafos?”;”Por que gosto tanto de preencher cadernos e mais cadernos com fichas de personagens, com plots e mais plots?”. São perguntas que me atingem quase como: “qual o sentido da vida”? Sempre rola, não dá para evitar.  É do ser humano procurar dar sentido às coisas; e é de mim a buscar a motivação para eu fazer o que faço (o que no futuro pode me gerar arrependimento e culpa, mas eu me torturo da mesma forma).
De volta às minhas questões pessoais, a minha resposta é sempre a mesma: porque eu gosto. Ponto. Nem mais e nem menos. Eu só gosto de contar histórias e de preencher cadernos com a minha letra feia e garranchada – e faço isso há tanto tempo que já virou algo inerente ao meu dia a dia. Já se enraizou.
Mas não é dessa forma que as pessoas pensam sobre mim e meu ato de escrever. O fato é que nada me deixa mais nervosa/constrangida quando me perguntam: “e os livros”? Dá para ver o brilho no olhar da pessoa no momento, como se eu fosse uma espécie de Megan Foxx nordestina, super ultra e mega famosa. Como se fosse alguém inatingível, incomum ao dia a dia como uma estrela hollywoodiana. E, gente, a coisa não funciona assim. Nunca funcionou.
Eu não me sinto uma pessoa especial, anormal, ou qualquer coisa que me destaque de uma maneira glamourosa apenas porque escrevo umas histórias aqui e acolá. Nunca me senti assim e nem acredito que eu me sentirei algum dia. É uma coisa tão absurda para mim que chega a me fazer pensar: “devo me sentir a diva de salto quinze por que respiro”? Escrever, para mim, sempre foi algo natural, quase como respirar. Ninguém me forçou a sentar em frente a um caderno, ainda criança, e a organizar em palavras metade das histórias que eu criava quando brincava de boneca. Desenvolvi isso porque era a minha maneira de passar o tempo, já que não tenho irmãos e não tinha muitos amiguinhos com quem brincar na infância. A brincadeira virou hábito, e o hábito prossegue até hoje.


Também não sei dizer se consigo me considerar “escritora”. Pessoalmente, a palavra “escritor” me chega aos ouvidos quase como se fosse um título de nobreza. As pessoas falam de mim como escritora como se eu fosse a estrela máxima da Via Láctea. De uma forma ou de outra, isso me deixa um pouco incomodada porque jamais me vi num pedestal por ter dois livros publicados, embora não me sinta menos orgulhosa da minha do meu trabalho. Eu só resolvi externalizar as histórias que cresceram dentro de mim e compartilhar com uma série de pessoas – conhecidas ou não.
Já ouvi e li pessoas do meio falando que não é escritor quem não escreve todos os dias, e isso não só me perturbou bastante como também me fez escrever um post enorme refletindo sobre isso (você pode ler aqui). Eu não vivo de escrita, embora a escrita me ajude a pagar umas contas no início de cada mês e eu lute bastante para receber pelo meu trabalho. Eu não escrevo os meus livros – ou projetos para livros – diariamente porque não tenho uma boa relação com a minha criatividade. Mas eu gosto de fazer isso, ainda que seja um hábito que se pronuncie uma vez aqui, uma vez acolá. E se minha falta de rotina me torna menos escritora e, portanto, menos glamourosa, por favor: troquem o título usado para mim.
Eu conto histórias e não me incomodo nem um pouco de ser chamada de “contadora”. Pode não haver muito de glamour nessa nomeação, mas há muito de magia – e eu acho que está perfeito dessa forma.

Diario, Festas de fim de ano, Literatura, Livros, Novidades, Os Olhos de Ravena, Outubro, Yume

[Livros] Vai ter Outubro, sim! – Um balanço sobre 2014 e planos para 2015.

 

Não é de se admirar que 2014 tenha sido um ano turbulento para mim. Quem me acompanha no Facebook possivelmente viu meus surtos e minhas preces para que os ambos os semestres acabassem – afinal, retornei às Letras nessa segunda metade de 2014 e estava cursando as duas faculdades simultaneamente. Minha vida inteira se voltou para as minhas obrigações acadêmicas: trabalhos, seminários, provas… E não, não consegui conciliar blog, vida literária e vida estudantil. De uma forma ou de outra, eu sempre opto pela faculdade. Meus estudos sempre virão em primeiro lugar.
Mas não, não estou escrevendo esse post para falar sobre todas as noites que madruguei minha vida estudantil, e sim sobre um panorama do que foi 2014 e do que será 2015. Fazendo um balanço geral, não consegui atingir todas as minhas metas literárias nesse ano. Pretendia relançar Yume – não rolou. Pretendia fazer a segunda edição de Outubro pela Create Space – não deu certo, já que não consegui me entender com o sistema e ele sairia mais caro para mim. Minha maior vitória (e objetivo alcançado!) foi ter concluído Os Olhos de Ravena – que, no atual momento, está aguardando pacientemente sua vez de ser revisado. Fora isso, 2014 foi um ano sem muitas novidades literárias. Mas, pela forma como as coisas estão caminhando, 2015 será diferente. Bem diferente.
Para começo de história: Outubro vai ser relançado, sim! Em março de 2015, iniciarei as vendas do livro aqui no blog e, possivelmente, ele só poderá ser comprado diretamente comigo e por aqui (postarei mais informações em fevereiro, fiquem tranquilos). A capa nova e a diagramação (que se mantém a mesma da edição anterior) ficaram a cargo da Marina Avila. A laminação do livro será fosca e ele irá sem orelhas, no tamanho 16×23! A primeira tiragem será pequena, de apenas cinquenta livros, então fiquem atentos para não perderem o seu exemplar! :)
Sobre Yume, o futuro do livro ainda está sendo traçado. Acredito que vocês tenham percebido que ele está fora da Amazon há alguns meses, mas acreditem: não foi sem razão. Yume ainda será lançado pela Wish, mesmo que, no momento, não possamos prever uma data. Temos muitos planos bacanas, porém estamos nos organizando com calma para tornar cada uma dessas ideias em material palpável! Não percam os próximos episódios!
Sobre Os Olhos de Ravena, estarei o revisando durante 2015 (se der certo, ainda nessas férias)! Minha pretensão é ter o livro pronto até metade do ano, mas não posso dizer mais nada além disso. Meu objetivo, como deu para perceber, é trazer meus dois primeiros trabalhos para o mercado mais uma vez. Peço calma, apenas, que um dia esse livro sai <3
E no mais, preparem-se, porque eu e a Juliana Rabelo tentaremos conquistar o mundo também em 2015!  Ainda nessa semana, iremos nos reunir para matar a saudade e comer pão de queijo <3 decidir alguns projetos que deverão vir à tona ainda em janeiro. Tem muita coisa boa, galera!

(é assim que os pedidos de casamento acontecem…)

É basicamente isso que eu gostaria de passar a vocês. Estou trabalhando para tornar real cada uma dessas metas. Vamos torcer para que tudo dê certo! :)

Literatura, Livros, Resenhas

[Resenha] Bling Ring: A gangue de Hollywood – Nancy Jo Sales

Entre 2008 e 2009, as residências de Lindsay Lohan, Orlando Bloom, Paris Hilton e diversas outras celebridades foram invadidas e saqueadas. Os ladrões, um grupo de jovens criados em um endinheirado subúrbio de Los Angeles, levaram o equivalente a 3 milhões de dólares em joias, dinheiro e artigos de grife, como relógios Rolex, bolsas Louis Vuitton, perfumes Chanel e jaquetas Diane von Furstenberg. As notícias surpreendentes sobre o caso chocaram Hollywood e intrigaram o mundo. Por que esses garotos, que em nada correspondiam à tradicional imagem dos bandidos, realizaram crimes tão ousados?

A jornalista Nancy Jo Sales entrevistou todos os envolvidos, incluindo os pais e os advogados dos jovens, e até mesmo as celebridades que sofreram os assaltos. Em Bling Ring: a gangue de Hollywood, ela apresenta todos os detalhes de uma das quadrilhas mais audaciosas de nossos tempos. A história real também inspirou o filme de Sofia Coppola, estrelado por Emma Watson.

Demorei um pouco para escrever essa resenha por causa de compromissos e deveres acadêmicos. Faz algum tempo que li Bling Ring, a Gangue de Hollywood (Instrínseca, 2013), mas a leitura ainda está pulsante na minha cabeça, e o livro, cheio de marcações coloridas nas partes que mais mexeram comigo. É lendo um relato como o de Nancy Jo Sales que a gente percebe a mentalidade doentia da nossa sociedade, que a gente nota que as coisas estão fora dos eixos há muito tempo. Tenho uma tese de que já vivemos distopias profetizadas por autores como George Owell e Aldous Huxley – apenas não percebemos.
Mas não vou me antecipar. A história da Bling Ring é conhecida e não há surpresas ou spoilers em narrá-la aqui: seis jovens americanos de classe média alta assaltaram casas de celebridades de Hollywood (como Paris Hilton, Orlando Bloom e Lindsay Lohan) entre 2008 e 2009 (jovens que, na época, tinham quase a mesma idade que eu), à caça principalmente de roupas e acessórios de marca. Os furtos seguiam um padrão simples e chegava até a ser impressionante a demora para os garotos da quadrilha serem pegos. A grande questão, porém, não foi a genialidade criminosa dos adolescentes: por que aqueles meninos e meninas, que tinham uma boa condição financeira, estavam envolvidos em uma situação daquelas? O que os motivava a agir de tal forma?

Talvez, refleti, os jovens da Bling Ring sentissem que bastava entrar na casa das estrelas porque essas estrelas não emitiam mais brilho algum. Talvez a Bling Ring, apesar de toda a frivolidade, representasse o início de uma reviravolta no relacionamento que os Estados Unidos mantinham com as celebridades.

P. 92

Li muitas críticas negativas ao livro, e creio que a razão para isso foi o fato de que as pessoas não sabiam de que se tratava de um livro jornalístico. A despeito das considerações que me deparei (“livro chato”, “enfadonho”), considerei o trabalho de Jo Sales muito bem fundamentado e elaborado. A intenção do livro – que anteriormente foi um artigo para a revista Vanity Fair, The Suspects Wore Louboutins – não era apenas narrar o desenrolar de uma história sobre um crime, mas também compreender as razões – externas e internas – que levaram os garotos a roubarem pessoas ricas e famosas. Para tanto, Jo Sales faz abordagens sobre a história dos Estados Unidos, traça um perfil dos adolescentes americanos (suas pretensões, seus sonhos, suas referências), usa literatura para fundamentar suas teses e desenha um retrato da sociedade estadunidense. O resultado não é bonito e, o mais triste, não é exclusivo dos Estados Unidos. Afinal, é muito comum conhecermos pessoas obcecadas por fama, dinheiro, celebridades, realitys shows, que dão alma e sangue para obter os almejados quinze minutos de fama.
E é nesse contexto que encontramos os garotos da Bling Ring. Obcecados por festas, criados em Hollywood; eles idolatram estrelas, marcas, estilos.  Usando roupas de celebridades, eles ser sentiam como uma de fato. Trajando-se com Prada, Chanel, Victor Hugo e marcas afins, eles faziam parte de um estilo de vida cheio de glamour, alcançavam o desejo de serem tão altos e intocáveis quanto os famosos que admiravam. Os adolescentes são um retrato perfeito – e triste – da sociedade deturpada que se originou da busca incansável pela fama, pelo sucesso financeiro. Alguns (como Alexis Neiers, uma membro do grupo que, a meu ver, é a caricatura perfeita da pessoa desesperada para ser conhecida) conseguiram, inclusive, seu próprio reality show em meio a toda a polêmica do caso.

Quero me sentir como eles parecem ser – disse Rubenstein – e, se eu tiver o que eles têm, então serei um deles. Se puder vestir o que eles vestem, meus problemas vão desaparecer, meu sofrimento vai sumir…

P. 65

O livro é dividido em três partes, cada uma abordando o caso de uma maneira diferente. Na primeira, nos deparamos com uma visão geral sobre o crime e, principalmente, com o retrato dos integrantes da Bling Ring e com as análises que Nancy Jo Sales faz sobre o assunto. Foi a parte que mais me cativou e que tinha os melhores quotes. Na segunda, conhecemos melhor as vítimas dos assaltos e a forma como as invasões às casas e os roubos foram feitos (é importante salientar aqui a participação de Nick Prugo, já que, de todos os integrantes da Bling Ring, ele foi o único que se mostrou disposto a colaborar com a polícia e a confessar seus crimes). Na terceira e última, temos o desfecho com um relato sobre as investigações e o decorrer dos processos judiciais (como não gosto muito de leis, essa foi a parte que menos me atraiu). Ao fim do livro, temos uma vaga noção de como os garotos estão – se cumprem penas, o que fazem das suas vidas, coisas do gênero – e a reflexão: o que está acontecendo com os adolescentes dessa geração?
Bling Ring: a gangue de Hollywood é uma leitura que, embora complicada aos que não são acostumados com esse gênero, considero essencial e edificante. É o tipo de livro que vai te fazer enxergar de maneira mais clara as razões para que as pessoas sejam tão obcecadas pela fama, pelo passageiro e pelo fútil, e como isso é pernicioso para a convivência social e para a própria realização pessoal. Ao final da leitura, é praticamente impossível não se sentir enjoado com a atual deturpação de valores – a questão que fica, porém, é: conseguiremos mudar alguma coisa desse panorama ou seremos consumidos por ele?

Fiquem com o tema do filme de Sofia Coppola, baseado no livro:

Literatura, Livros, Maratona Literária

[Maratona Literária] O primeiro desafio de 2014

Eis que, depois de ter namorado muito a primeira edição da Maratona Literária (para saber o que é, clique aqui!) e não ter conseguido participar, surge uma chance para mim. O desafio de leituras começou e, dessa vez, estou LI-VRE para poder participar e ser feliz! A minha meta é pequena (desproporcional à quantidade de livros que existe aqui em casa) porque, como também estou aproveitando as férias para revisar, preciso dosar bem a minha dedicação. Vamos aos livros?

#Partiu #Leituras
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Literatura, Livros, Quotes

[Quote] As Virgens Suicidas (Jeffrey Eugenides)

 Nunca conseguimos entender por que as meninas queriam tanto ser maduras, ou porque se sentiam na obrigação de elogiar umas as outras, mas às vezes, depois que algum de nós lia algum trecho mais longo do diário em voz alta, precisávamos lutar contra o ímpeto de nos abraçarmos ou de dizermos um ao outro como éramos bonitos. Sentimos o encarceramento de ser uma menina, como isso deixava a mente ativa e sonhadora, e como elas acabavam sendo naturalmente quais cores combinam melhor. Ficamos sabendo que as meninas eram gêmeas nossas, que todos existíamos no mesmo espaço como animais de peles idênticas, e que elas sabiam tudo a nosso respeito, embora não entendêssemos coisa alguma sobre elas. Ficamos sabendo, enfim, que na verdade as meninas eram mulheres disfarçadas, que compreendiam o amor e também a morte, e que o nosso trabalho era apenas gerar o ruído que parecia fasciná-las.

Pg. 44